*Reprodução da matéria da Revista Mais Carnes, para a qual concedi entrevista.

Por Erika Ventura e Juçara Pivaro – Revista Mais Carnes, edição 65, maio/junho de 2026, p. 40–43.

Bem-estar físico e mental no alto do plano de metas das grandes companhias. Afinal, não existe alcance de metas comerciais sem capacitação, segurança e proteção de quem está na linha de frente da operação.

Quais são os maiores desafios do seu segmento hoje?

Se essa pergunta fosse feita para 100 empresas, provavelmente mais da metade incluiria a mão de obra entre os principais pontos de atenção. Em um mercado cada vez mais competitivo e acelerado, recrutar, desenvolver e reter profissionais passou a ser tão estratégico quanto ampliar vendas ou investir em tecnologia.

Na indústria alimentícia, essa realidade tornou-se ainda mais evidente. O crescimento das operações, a modernização dos processos e a necessidade de profissionais especializados fizeram com que as empresas passassem a olhar para o capital humano de forma mais ampla e estruturada.

De acordo com Cinara Munhoz Carzola, gerente de Gente & Gestão e SST da Frimesa, as operações da cooperativa são de grandes proporções, o que exige uma gestão de pessoas proporcional a essa escala. “Atualmente, mantemos uma estrutura que sustenta mais de 13 mil empregos diretos, com um fluxo constante de novas oportunidades distribuídas entre nossas principais unidades industriais em Medianeira, Marechal Cândido Rondon e Assis Chateaubriand. Essa dinâmica regional nos exige uma expansão constante do raio de recrutamento para cidades cada vez mais distantes. As vagas operacionais destacam-se pelo maior volume, considerando a realidade da indústria. Já as funções que exigem maior conhecimento técnico e especializações, como as de manutenção e desossa, por exemplo, acabam sendo impactadas pela competitividade do mercado e também pela necessidade de tempo para qualificação”, explica.

A Pamplona Alimentos, também situada na região Sul do país, acompanha um cenário semelhante, especialmente em áreas com forte dinamismo econômico, como o Alto Vale, em Santa Catarina. Segundo Irani Pamplona Peters, presidente do Conselho, a disputa por profissionais qualificados tornou-se uma realidade permanente dentro da indústria.

“No caso das funções operacionais, o desafio está relacionado à disponibilidade de profissionais com perfil aderente às atividades industriais, em um contexto de alta competitividade no mercado de trabalho local. Posições de áreas técnicas como manutenção mecânica ou elétrica são as mais críticas e a falta delas impacta diretamente a operação. Já para posições técnicas, administrativas e de gestão, o principal ponto está na formação e qualificação alinhadas às demandas específicas do negócio. Por isso, a companhia tem investido de forma consistente no desenvolvimento interno de talentos, buscando preparar profissionais para assumir posições estratégicas ao longo do tempo”, detalha Irani.

Elza Veloso, professora da Fia Business School, reforça que o problema também se intensifica em áreas e funções técnicas e operacionais que exigem, além de qualificação específica e conhecimento especializado, habilidades físicas e competências corporais. “É preciso que jovens tenham interesse e perspectiva de carreira para querer trabalhar nessas funções, mas a rotatividade aumenta quando outras indústrias passam a disputar esses trabalhadores”.

Carência em todas as funções

Segundo informações do Sindicarne de Santa Catarina, o estado tem mais de quatro mil postos de trabalho à disposição. Jorge Luiz de Lima, diretor executivo do ACAV Sindicarne, informa: “as vagas com maior disponibilidade de emprego são para magarefe, ou seja, profissional encarregado do abate, esfola, desossa e preparo inicial de animais de bovinos, suínos, caprinos e aves, porém existe carência de mão de obra em todas as funções, apesar de automatização de linhas de produção ao longo dos últimos 20 anos”.

Lima ainda destaca: “o setor agroindustrial precisa de todas as espécies de profissionais, ou seja, desde a linha de produção para o acabamento do produto que chega a mais de 150 países, passando pelo operador qualificado que desenvolverá sistemas e irá operar os equipamentos/softwares”.

Qualificação: necessidade de sobrevivência

Diante desse cenário, empresas do setor têm fortalecido programas internos de capacitação, formação técnica e desenvolvimento de lideranças. Mais do que preencher vagas, o objetivo é criar ambientes capazes de preparar profissionais para os desafios atuais e futuros da indústria.

Na Pamplona, o desenvolvimento profissional é tratado como uma agenda estratégica, conectada diretamente à produtividade, à segurança operacional e à qualidade dos processos.

“Neste ano de 2026, em parceria com o SENAI, já ofertamos cursos técnicos em áreas como manutenção, qualidade, segurança no trabalho, PPCP, logística e tecnologia para os colaboradores. Também temos diversos programas de treinamento, como a Escola de Lideranças, o Programa de Manutentor em Formação, o Programa Desenvolve e a UniPamplona — universidade corporativa — entre outros, que visam o desenvolvimento dos colaboradores”, salienta Irani.

Na Frimesa, a qualificação também ocupa papel central dentro das metas corporativas. Para a cooperativa, investir em conhecimento e segurança é investir diretamente na sustentabilidade do negócio, como a iniciativa Frimesa Educação Corporativa, ecossistema interno voltado à formação técnica, operacional, cultural e de lideranças.

“A qualificação não é apenas um diferencial, mas sim uma necessidade de sobrevivência do negócio. Colaboradores qualificados impactam diretamente no faturamento da empresa; por outro lado, um profissional não qualificado pode comprometer a segurança dos alimentos, o que, em nosso setor, é inadmissível, visto que primamos pela excelência de nossos produtos. Além disso, a redução de desperdícios e retrabalhos eleva nossa margem de lucro. O impacto principal, e que consideramos o mais crítico, é que o colaborador qualificado reduz os índices de acidentes e de doenças físicas, mentais e ocupacionais, o que é tratado como prioridade absoluta em nossa cooperativa”, afirma Cinara.

A escassez de profissionais capacitados afeta diretamente o desempenho das indústrias, especialmente em um setor que exige altos padrões de qualidade e segurança alimentar. A professora Elza, informa: “Por mais que as empresas forneçam treinamentos, é no dia a dia que as pessoas se desenvolvem e aprimoram seu trabalho. A escassez de profissionais capacitados gera sobrecarga diária e acaba colocando em risco a produtividade e esses padrões de qualidade, além de alimentar a rotatividade do setor ”.

Os programas internos de treinamento são importantes, mas não suficientes para resolver o problema sozinhos. “As parcerias com o governo e instituições de ensino são essenciais em época de escassez de mão de obra porque, além de capacitar trabalhadores, é possível gerar interesse por trabalhos que as pessoas não conhecem tão bem. Por outro lado, é preciso que as empresas resgatem seu papel de educadora e que criem condições de trabalho e de progressão de carreira que sejam atrativas aos trabalhadores”, ressalta a professora da FIA.

Entre as competências mais difíceis de encontrar atualmente estão habilidades técnicas ligadas à operação e manutenção de máquinas pesadas, além de conhecimentos voltados à segurança e controle de qualidade. A professora Elza enfatiza:
“No aspecto comportamental, destaca-se a necessidade de profissionais com senso de responsabilidade, comprometimento e capacidade de identificar riscos nos processos produtivos”.

O futuro começa agora

De acordo com a professora Elza, a automação já vem alterando significativamente as exigências de qualificação dentro das indústrias. “A automação faz com que seja necessário um número menor de trabalhadores, mas com uma qualificação maior. São necessárias pessoas com mais prontidão e autonomia para lidar com máquinas inteligentes. Isso restringe as escolhas no processo seletivo, gerando mais dificuldade de contratação”, explica.

Para enfrentar esse cenário, a professora Elza acredita que as empresas precisam investir em estratégias voltadas à retenção e valorização dos trabalhadores. “As principais estratégias estão na melhoria das condições de trabalho para retenção dos melhores profissionais e na perspectiva de crescimento na carreira, que envolve não somente a remuneração, mas também as possibilidades de aprendizado que o trabalho pode proporcionar ”, afirma.

A falta de mão de obra qualificada está relacionada tanto às dificuldades de acesso à formação técnica quanto às próprias condições de trabalho oferecidas pelas empresas. “Nas indústrias em geral, temos questões educacionais de falta de acesso à formação técnica, mas temos também problemas nas condições de trabalho que levam pessoas a mudar de emprego com mais facilidade quando percebem melhores oportunidades na concorrência”, conclui a professora da FIA.

Em suma, o avanço da automação, da inteligência artificial e das novas tecnologias deve transformar ainda mais o perfil da mão de obra industrial nos próximos anos. Ao mesmo tempo, cresce dentro da indústria a percepção de que tecnologia e resultados só acontecem de forma sustentável quando existe um olhar genuíno para as pessoas.

Imagem: we.bond.creations | Adobe Stock

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